Redação do Enem ou não

4 Minutes Nov 7, 2023 796 Words

Quando eu tinha 10 anos e estava na quarta série minha professora fez uma daquelas atividades que a gente tinha que apresentar para turma o que a gente queria ser quando crescesse. Uma grande responsabilidade para alguém de dez anos decidir ou mesmo pensar sobre. E se eu errar? E se eu não souber? E se o que eu quero for visto como algo bobo? E se o que eu gosto de fazer não der dinheiro? E se eu não quiser fazer nada nobre como salvar vidas ou ensinar vou ter respeito e admiração dos colegas e da sociedade mesmo assim? Todas as profissões são importantes? Eu não sabia todas essas respostas e não sou a melhor pessoa para responder elas para você, como dizia meu professor de sociologia e filosofia eu não estou aqui para te dar as respostas estou aqui para te ensinar a fazer as perguntas.

Naquela época eu era conhecida por fazer textos longos e fui ficando boa na antiga, tão difundida e bem explorada arte de “encher linguiça”, e por mais que naquela época meus textos fossem realmente sem sentido, ruins de dar dó, sorry guys (a professora fazia cada um ler o seu texto), por algum motivo, naquele fatídico exercício eu disse que queria ser escritora.

Eu poderia dizer que escritor é qualquer um que escreve, portanto cá estou, dito isso posso ser o que eu quiser eu não preciso de um diploma para ser filósofo, ou jornalista nem mesmo advogado ou médico – eu preciso para exercer a profissão, o que é diferente, mas pelo amor do meu cachorro, isso não é um conselho, nem mesmo um incentivo, só estou tentando chamar atenção para o fato do saber ir além do papel do diploma. No caso de algumas profissões em específico por exemplo vamos imaginar o marceneiro, o pintor, o pedreiro, não existe escola, curso técnico, colação de grau, formatura, existe ir lá e aprender fazendo com quem faz, pronto, aprendeu? Aprendido está, não precisa renovar o documento, refazer prova, pagar não sei o quê.

É claro que é diferente. O que um pintor precisa saber e o que um médico precisa saber. Algumas coisas são diferentes por isso merecem tratamentos diferentes.

Corta para hoje, domingo estou no mercado, fomos comer um lanche o consagrado e eu, com preguiça de fazer almoço e atrasados porque dormimos até tarde e eu ainda precisava trabalhar. Vimos um pessoal da Faculdade amarelinha e o consa comentou comigo “mas é longe daqui né”, e eu - é, mas acho que ainda é o lugar mais perto aberto de domingo. Não estava acompanhando o calendário e não sabia que era dia de Enem, por isso estavam lá, provavelmente almoçando também. Fomos comprar o que estava faltando e passar no caixa, nisso tomo a estranha atitude de ao invés de ir para o auto caixa ir para um com um atendente, um moço bem novinho, porque eu pensei, “é mais rápido, ele passa eu empacoto” chego lá e ele estava no meio de uma conversa com o colega do caixa de trás “é porque no dia das mulheres desse ano eles chamaram uma mulher trans para fazer a propaganda, nada a ver” eu cheguei.

  • Por que não?

  • Porque o dia das mulheres é pipipipopopó…

Repara que estou eu, uma mulher de 31 anos ouvindo um moleque me explicar sobre o Dia Internacional das Mulheres, o creme de la creme do mansplaining senhores e eu consegui fazer cara de “Ah é mesmo? me conta mais”

Aí o menino seguiu me dizendo que “é diferente”

E eu disse que não e ele descambou com um “a porque imagina se quiserem usar o mesmo banheiro que as mulheres como vai saber que é trans”

Neste momento eu só pedi para ele “Só para de falar e passa minha compra por favor”.

Eu geralmente não sou grossa. Mas nossa hoje foi difícil, está sendo difícil te defender cidade. Quando eu falo bem daqui e digo que é “a melhor cidade do país pra se morar” sai na Isto É, cidades de até 50 mil habitantes, de pequeno porte, sim, muito bonita, tem ciclovia, morros, museus, coleta seletiva, parques, é linda.

O que estraga são os moradores. Não são todos é claro, mas eles são muitos. 98% votaram no presidente que fazia piadas machistas, racistas e homofóbicas e vamos lembrar foi condenado por racismo e homofobia, e é claro o povo daqui se identifica e muito, além de ser muito xenofóbico. E como esperamos que vão crescer os filhos dessa gente, a história da maçã não cair longe do pé, a nova geração, o nosso futuro, eu consigo só resumir naquela frase da música do Gabriel o pensador “Sou playboy, filhinho de papai, sou um débil mental, somos todos iguais.”